quarta-feira, 22 de junho de 2011

PUDIM (não é de Martha Medeiros)

"Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir Pudim de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente um pedacinho minúsculo do meu pudim preferido. Um só.
Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um pudim bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.
O PUDIM é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come pouco.
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.
Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').
Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.
Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.
Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar.
E por aí vai.
Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão...
Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado'.
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.
Recusar prazeres incompletos e meias porções.
Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim:
'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'.
Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar vários pedaços de pudim, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.
Um dia a gente cria juízo. UM DIA. Não tem que ser agora.
Por isso, garçom, por favor, me traga:
um pudim inteiro um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order', uma caixa de trufas bem macias e o Richard Gere, nu, embrulhado pra presente. OK?
Não necessariamente nessa ordem.
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago."

Aqui Martha Medeiros diz que esse texto não é dela.

2 comentários:

Luciana Maria Penteado disse...

Seja da Martha ou não, é uma delícia de texto, especialmente a parte do Richard Gere, rs.

Tatiana disse...

Aninha, me identifiquei muito com o texto, com cada frase, principalmente com o trecho "Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado'.
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito[...]Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim:
'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'". Foi o que fiz, até a frase de Sto Agostinho, em outras palavras eu falei para Deus (e me afastei Dele). Só que eu fui longe demais na minha vontade de comer meias porções, o problema não foram as meias porções, mas me tornar escrava das minhas vontades, resumindo, hj estou obesa, sedentária, não consigo ler um parágrafo de um livro, nem mesmo a Bíblia, que era o que mais gostava, não faço mais estas coisas porque não tenho vontade de fazê-las. Mas após 10 anos +/- passei a sentir necessidade de viver o último parágrafo do texto "Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago." E estou gastando uma fortuna com ginecologista (desenvolvi endometriose severa), endocrinologista e nutricionista (para voltar ao peso ideal, afinal o excesso de peso e sedentarismo ajudou a provocar muitas aderências dos órgãos da região pélvica) e provavelmente precisarei de psicologo para tratar os efeitos colaterais das medicações pesadas que os referidos médicos me receitaram e dos sintomas da endometriose. Mas o que me fez "criar juízo" e consertar o estrago que fiz em minha vida foi o desejo, que aos poucos voltou a surgir, de buscar a santidade. Isto me fez perceber que já estava na hora de eu me cuidar, de dar um basta em todo o sofrimento que tenho passado. Pois a santidade nada mais é do que "cumprir com o dever e praticar a justiça" (Is 56:1), que significa fazer as coisas que temos de fazer (e isto está no campo da escolha e não no da vontade) bem feito, buscando não só o nosso bem, mas tb o do próximo. Estou tentando dar a volta por cima, confiando em Deus (mesmo sem fazer as pazes com Ele), porque me recordei, com o texto do "O Folheto), que Deus me ama muito, mesmo quando eu mesmo coloco a corda no meu pescoço ou quando me excedo nas porções de pudim.
Obrigada pela postagens de textos que nos fazem refletir (e no meu caso acho que foi providência divina conhecer o seu blog).
Parabéns pelo seu blog, mesmo que alguns textos não sejam seus.

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