terça-feira, 17 de junho de 2008

Para seu filho dormir como um anjo...

Conversa comum entre pais (quaisquer), geralmente um se gabando, o outro idem, ou um ou outro fazendo alguma queixa: o sono dos filhos. Porque a criança que não dorme obriga, necessariamente, o pai ou a mãe – se não ambos – a passar também uma noite em claro. Talvez, na melhor das hipóteses, costurando cochilos entre um chamado e outro. Resultado no dia seguinte: cara feia para todo mundo, cansaço, desatenção e irritabilidade.

O sono é instável nos primeiros anos de vida. Ao nascer, o bebê apresenta um padrão polifásico, alternando períodos de sono e vigília várias vezes ao dia – ao contrário das crianças maiores e dos adultos, regidos pelo ciclo circadiano, relacionado aos períodos de luz e noite. Até os dois ou três anos, é normal que aconteçam interrupções. Não significam – em uma interpretação bastante comum – que a criança tem problemas para dormir ou está sentindo dor ou desconforto.

– Há crianças que acordam, voltam a dormir e os pais não percebem, que são a maioria, e crianças que acordam e choram. Essas são consideradas problema, e na verdade a maioria é absolutamente normal. O choro pode ser só porque ela se viu sozinha – comenta a neurologista Magda Lahorgue Nunes, especialista em medicina do sono na infância e professora da PUCRS.

Com freqüência, a mãe acredita que é fome e oferece o peito ou a mamadeira. Depois dos seis meses, se o bebê não nasceu prematuro e não apresenta nenhuma carência nutricional, não há razão para manter a alimentação noturna, que o condiciona a acordar.

– Termina criando um hábito, como as crianças de três anos que precisam ser alimentadas à noite. Do ponto de vista fisiológico, não existe essa necessidade, é um hábito que foi criado – completa Magda.

Na infância, a insônia geralmente é conseqüência de outros problemas, como refluxo, doenças crônicas, ansiedade ou distúrbios do sono. Nesses casos, trata-se a causa principal, e a dificuldade para dormir tende a ser contornada. Mesmo casos de insônia primária, sem outros fatores relacionados, geralmente são solucionados com o tratamento adequado.

Denis Martinez, especialista em sono e professor de medicina interna na UFRGS, ensina uma fórmula para os pais que desejam estabelecer bons hábitos de descanso para os filhos: insistir ao longo de três dias, mesmo enfrentando resistência. Se a criança reclama por ter que ir para a cama às 20h, vai fazer beiço hoje, amanhã e depois. E só, segundo o médico.

– As crianças enlouquecem, enlouquecem os pais junto e eles desistem. As coisas vão começar a funcionar a partir do quarto dia. Sempre que os pais querem botar um horário para dormir, dá gritaria, balbúrdia. No quarto dia é que vai dar certo – afirma Martinez.

Hora de apagar a luz

Toda a família deve estabelecer uma rotina para a noite: após o jantar, diminua a iluminação e o barulho. Não adianta querer que seu filho deite, feche a porta e fique quietinho se o restante da casa continua a mil.

As fases do sono

Tome-se como exemplo o ciclo de sono de um adulto - evolui em fases, da primeira (quando está adormecendo) à quarta (a de sono mais profundo). Completadas as etapas de 1 a 4, começa então a fase REM (do inglês rapid eye movement, movimento rápido dos olhos), em que ocorrem os sonhos e quando o sono é mais agitado. Essa sucessão - fases 1, 2, 3, 4 e REM – se repete ao longo da noite.

Ao nascer, o sono do bebê se divide em dois momentos: o sono não-REM, calmo, quando dorme tranqüilo, e o agitado, característico do período REM, quando pode se movimentar, espichar uma perna ou um braço, eventualmente sorrir ou até fazer caretas. O fato de o bebê se movimentar não significa que está despertando ou que não está descansando – pelo contrário, está, sim, repousando, e muito. Até o segundo mês, é o sono REM que predomina, diferentemente do que acontece com os adultos, para quem o sono agitado corresponde a apenas 25% do total. Ao final do primeiro mês, início do segundo, há um equilíbrio: 50% do sono é calmo, 50% é agitado. A partir de então, começa a se dar a inversão, e a quantidade de sono REM começa a diminuir, aumentando a porção de sono não-REM – o que significa que o sistema nervoso central está se organizando, o organismo está amadurecendo. Dos seis meses em diante, a criança passa a ter períodos mais longos de sono noturno, despertando, em média, duas vezes. Ao longo do dia, o período de vigília (quando está acordada) se estende por mais tempo, com dois momentos de sesta, normalmente um pela manhã e outro à tarde. Até por volta dos três ou quatro anos, é aconselhado manter pelo menos um período de sesta por dia.

Ambiente ideal

> Crianças e adolescentes com dificuldades para dormir devem evitar, à noite, café, chocolate, leite com achocolatado, chocolate quente, refrigerante e demais bebidas e alimentos com cafeína.

> O ideal é que toda a família estabeleça uma rotina noturna. Após o jantar, aos poucos a casa deve ser preparada para o sono: diminua a iluminação, reduza o volume da televisão e demais ruídos, deixe a temperatura do quarto agradável. Um alerta para as noites frias: um ambiente aquecido demais também provoca desconforto, causando sede e transpiração.

> Não adianta querer que a criança fique no quarto, no escuro e de porta fechada, se o restante da casa permanece com intensa movimentação.

> Contar histórias na cama ajuda a relaxar, além de estimular o vínculo entre pais e filhos. Faça uma combinação: uma ou duas historinhas, depois é hora de apagar a luz e dormir.

> Um copo de leite morno, puro, ajuda, sim. Banho é igualmente relaxante.

> A rotina com os pais pode dar segurança e tranqüilizar: uma conversa, uma brincadeira, assistir TV juntos são algumas opções.

Ansiedade

Um mesmo padrão de sono pode ser encarado com tranqüilidade por uma família e com ansiedade por outra. É preciso tentar manter a calma para que seu filho não se contamine com esse nervosismo, tornando as noites ainda mais difíceis. Em alguns casos, crianças que dormem mal em casa não apresentam nenhuma dificuldade para iniciar ou manter o sono quando, por exemplo, passam o final de semana fora, com amigos ou familiares.

Sinais de alerta

Preste atenção em crianças em idade pré-escolar e escolar e adolescentes que demonstram sonolência durante o dia. Se ficam irritados com facilidade e desatentos, às vezes apresentando queda no rendimento, essas características podem estar relacionadas a noites maldormidas, quando há dificuldade para pegar no sono ou para mantê-lo. Não é esperado, por exemplo, que uma criança de quatro anos acorde várias vezes de madrugada. Nessa idade, o ciclo de sono já deve estar estabilizado. A criança que dorme demais pode estar demonstrando que algo não vai bem. É preciso investigar.

Dormir com os pais (1)

Sempre que possível, o mais indicado é que seu filho tenha o próprio quarto – e durma nele –- ou divida o dormitório com o irmão, e não com os pais. Especialistas ainda discutem as vantagens e desvantagens de se colocar um berço próximo à cama do casal, para que fique mais fácil atender o bebê. De qualquer maneira, a partir dos seis meses, o ideal é que ele passe para um quarto separado, em benefício, inclusive, da intimidade dos pais.

Dormir com os pais (2)

Uma rotina que inclui a presença dos pais à noite pode dar segurança à criança antes de ir para a cama. Se ela gosta de deitar com eles para assistir TV até adormecer, sendo levada depois para o seu quarto, sem sobressaltos até o outro dia, tudo bem. Mas se seu filho desperta inúmeras vezes, solicitando a sua presença ou procurando a sua cama, hábitos como esse devem ser evitados, sob pena de reforçar uma rotina que não contribui para a tranqüilidade da criança. Evite trancar a porta do quarto para que ela não entre, provocando choro, brigas e estresse de madrugada. Resista também às soluções mais fáceis, como colocá-la para dormir na cama do casal. É preciso tranqüilizá-la, garantir que você está ali, bem próximo. Leve-a de volta para o quarto dela e lhe faça companhia até que pegue no sono outra vez.

Quem levanta?

Resposta mais comum: normalmente, é a mãe quem atende o filho no meio da noite. O ideal é que, após o desmame, ambos se revezem na tarefa. Se a criança dorme mal, os pais também são submetidos ao mesmo processo de privação de sono, impedindo um repouso adequado. Como resultado, aumentam o cansaço e a irritabilidade durante o dia.

Adolescentes

Quem ficou até altas horas acordado, vidrado no computador ou em festas, pode aproveitar principalmente o final de semana para colocar as horas de sono em dia. É importante, no entanto, não extrapolar os períodos de sesta, ficando na cama a tarde inteira, para que o sono da noite seguinte não seja também prejudicado. Depois de um sábado e um domingo desregrados, a tarde da segunda-feira, principalmente para quem estuda de manhã, é um período importante para repousar e começar bem a semana.

Sesta

Sestear é um bom hábito em todas as idades, apesar de se tornar cada vez mais raro atualmente. O ideal é que o período de descanso seja logo após o almoço, com duração de 20 minutos a uma hora – nunca excedendo duas horas – não ultrapassando o horário das 15h30 ou 16h. Com essas orientações, o sono noturno não deve ser prejudicado.

O que fazer

O pediatra está habilitado a dar as primeiras orientações, investigar a rotina da família e descartar problemas de saúde que possam estar interferindo.

Em alguns casos, mudanças de hábito resolvem o problema. Se a criança acorda muito, chamando os pais, eles podem ser orientados, por exemplo, a não atender imediatamente o filho. A cada vez que forem solicitados, devem demorar um pouco mais para ir até a criança, sem alarde ou luz acesa. Não devem ficar muito tempo, apenas o suficiente para assegurá-la de que estão presentes. Se ela voltar a reclamar quando o pai ou a mãe saírem, o mesmo procedimento deve ser repetido, com o adulto demorando um pouco mais para atendê-la do que na última vez.

O mesmo médico pode solicitar uma polissonografia (o paciente dorme conectado a sensores, e o exame permite diagnosticar distúrbios), o que não é muito comum para crianças, ou encaminhar para um neurologista, um pneumopediatra ou um otorrinolaringologista. Especialistas em sono fazem um questionário detalhado com a família, o que permite, na maioria das vezes, identificar o que está errado.

A partir dos seis meses, excetuando-se os casos de prematuridade, o lactente não tem mais necessidade de mamar à noite. Enquanto a amamentação é mantida, a criança continua despertando.

Adolescentes que dormem muito tarde e acordam cedo para ir à escola podem fazer uma sesta, no horário em que for possível, além de tentar regulamentar melhor a rotina noturna.

Uma avaliação psicológica pode investigar o que vem provocando medo, ansiedade ou pesadelos.

Medicamentos para insônia não são aprovados para uso pediátrico. Excepcionalmente, o médico receita um remédio que provoca sonolência, como alguns antialérgicos. Indutores de sono prescritos para adultos (benzodiazepínicos e não-benzodiazepínicos) são contra-indicados para uso infantil. Em casos de terror noturno, quando há o risco de ocorrerem crises muito violentas e até de se machucar, pode-se indicar benzodiazepínicos por três a quatro semanas, e então o quadro tende a se estabilizar.


Dormir, dormir, dormir

Estudos ainda não apontaram, exatamente, quais são as funções do sono, e especialistas da área trabalham amparados em hipóteses. Inicialmente, acreditava-se que, enquanto adormecido, o organismo parava e descansava, idéia hoje descartada. Trata-se de um processo muito ativo, que extrapola as funções meramente reparadoras, fundamental para o desenvolvimento do sistema nervoso central (principalmente durante os 12 meses iniciais), memorização e funções cognitivas. No primeiro ano de vida, as crianças dormem, e devem dormir, muito.

ZH/MEU FILHO

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