quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A Essência do Encontro

Arthur da Távola

Tudo o que todos querem é amar,
Encontrar alguém que faça bater forte o
coração e justifique loucuras.

Que nos faça entrar em transe, cair de quatro,
babar na gravata.
Que nos faça revirar os olhos, rir à toa,
cantarolar dentro de um ônibus lotado.

Depois que acaba esta paixão retumbante
Sobra o quê? O amor. Mas não o amor
mistificado, que muitos julgam ter o poder
de fazer levitar.

O que sobra é o amor que todos conhecemos,
o sentimento que temos por mãe, pai, irmão,
filho. É tudo o mesmo amor, só que entre
amantes existe sexo.

Não existem vários tipos de amor, assim como
não existem três tipos de saudade, quatro de
ódio, seis espécies de inveja.

O amor é único, como qualquer sentimento: seja
ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus
a diferença é que, como entre marido e mulher
não há laços de sangue, a sedução tem que ser
ininterrupta.

Por não haver nenhuma garantia de
durabilidade, qualquer alteração no tom de voz
nos fragiliza, e de cobrança em cobrança
acabamos por sepultar uma relação que poderia
ser eterna.

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo,
mas insustentável. O sucesso de um casamento
exige mais que declarações românticas.

Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo
teto, tem que haver muito mais que amor, e às
vezes nem necessita de um amor tão intenso.

É preciso que haja, antes de mais nada, respeito.
Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos
alheios. Alguma paciência.

Amor, só, não basta.

Não pode haver competição. Nem comparações.
Tem que ter jogo de cintura para acatar regras
que não foram previamente combinadas.

Tem que haver bom humor para enfrentar
imprevistos, acessos de carência, infantilidades.
Tem que saber levar.

Amar, só, é pouco.
Tem que haver inteligência.

Um cérebro programado para enfrentar
tensões pré-menstruais, rejeições, demissões
inesperadas, contas pra pagar.

Tem que ter disciplina para educar filhos, dar
exemplo, não gritar. Tem que ter bom psiquiatra.

Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem visando à longevidade
do matrimônio tem que haver um pouco de
silêncio, amigos de infância, vida própria, um
tempo pra cada um.

Tem que haver confiança,
uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu,
fazer de conta que não escutou. É preciso entender
que união não significa, necessariamente, fusão.
E que amar, "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que o amor
é só poesia, tem que haver discernimento, pé no
chão, racionalidade. Tem que saber que o amor
pode ser bom, pode durar para sempre, mas que
sozinho não dá conta do recado. O amor é grande,
mas não é dois.

É preciso convocar uma turma de sentimentos
para amparar esse amor que carrega o ônus da
onipotência. O amor até pode bastar, mas ele
próprio não se basta.

Um bom Amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidade a todos nós!

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